quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Aos poucos diletantes que me lêem por aqui. Ouçam, por favor, esta pérola de ágata incrustada na década dos 20,a década menos apta- a década do expressionismo- a correspondências, a festins outonais, a Misereres sentimentais, a estertores opalinos, a circunavegações místicas pela nau do abandono e da desilusão, este escavar e este evacuar o quintal do Sturm und drang, castrá-lo e seviciá-lo com doses de opróbrio erótico e expiação masoquista, longo lamento de estrela cadente num deserto de harmonias retilínias e viril contraponto; enfim, ouçam a Georgette Frozier-Marrot cantando Berlioz ( aquele bastardo filho da puta! que às vezes é divinizado por obra, acaso e des-graça do descuido de Satan, que cochicha ainda: é bonitinho, mas é Arrrrrte??); comparem este lieder com um spititual cantado por Marian Abderson, ou por um spiritual cuspido em surdina por Ethel Waters, e Verão: o quê não sei, porque as verdadeiras Vidências nos deixam cegos para as aporias da carne, assim como para os ocasos da memória, os abrasamentos da percepção, as noites brancas e la Signora Morte, Patrona di tutti. Mas Verão.


http://cantanellas.blogspot.com/2009/10/georgette-frozier-marrot-adieu-fiere.html

domingo, 13 de setembro de 2009

Um belíssimo blog, em forma e conteúdo:


http://wonderstate.blogspot.com/

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

La Stratas/ La Ewig





Em tempo: o Lulu com a Stratas ( Teresa), dirigida por Pierre Boulez, é de matar de inveja a galinha sefaradita Maria Ewig ( que nos deu uma Salomé com transtorno bipolar e fogo no absinto, encenada por Peter Hall). Deve existir algum vírus responsável pela coloratura, esta arte de volutas incandescentes, de miomas em fá. A coloratura é um cataclisma do útero; sues abalos sísmicos são os peidos da Eternidade ( bem, do Eterno feminino ao menos, tara demodé), se esta se desse ao luxo de exercitar-se ainda em linguagem, em se exprimir. Mas ela já não precisa falar/peidar ( a oposição é psicanalítica e trágica também, a impossível resolução se situa em algum ponto entre uma litania cantada por Om Kalsoum e um disco de Bach, girando indefinidamente sobre o contraponto da dissolução, numa tarde em Treblinka). Não, a Eternidade não nos dá o ar de sua graça, e quando se digna a tal, já não há testemunhas para o seu esplendor. E se houvesse espectadores para esta noite de gala, seríamos nós a noite, enfim engalanados pelo manto espesso do Oblivium: fulminação.

Resta-nos apenas o famigerado espetáculo desta criadinha impertinente- a coloratura- que roubou as jóias e vestidos da patroa- a Eternidade-e a imita, diante do espelho. Tragédia que volta como farsa, Divino que volta como zoon politikus, pouco antes da Redenção/Revolução que, gorada coitada, ficou esperando o bonde passar e, ao coçar por acaso o calcanhar, acabou atropelada por ele...De qualquer modo, a Stratas, com seu cristal regado a vermute seco, faz-nos a graça ( a pequena, graciosa graça, a gracinha) de esquecer a deslambida Ewig, que ainda por cima é vesga e tem buço de 2 por 2cm!

O link para download abaixo:


http://www.avaxhome.ws/music/classical/DG463617_Lulu.html



Spontini

Spontini é um dos menos conhecidos mestres do bel canto. Talvez por não ser considerado exatamente um mestre, talvez por sua música respirar menos o agônico operístico que o capitoso camerístico; talvez pela Vestale, sua ópera mais famosa, ser um fruto temporão de Berlioz; talvez por sua excessiva condescendência para com Meyerbeer, grave e aveludado pastor de correspondências- Luto e Evocação, Desalento e Amor, todos os seus contrapontos pranteiam o instante natimorto, as volutas de sua música se perdem no zéfiro da tísica. Mas não, não posso acreditar que o autor da Vestale, do Eglisi delusi, da Olympir ( omito suas petites óperas comiques, fastidiosas, entre o queijo e o café, o colapso e o beijo no espectro) seja considerado apenas um ancestral de Berlioz, um contemporâneo de Cherubini, um homem de gosto, um homem de estilo, ou pior: um honnete homme, qualidades sofríveis apenas enquanto o surto não chega, e com ele o êxtase, os anjos exilados, o baile do ocaso. Spontini- Tu che invoco!- é, como Gautier em literatura e Poussin em pintura, a cicatriz do romantismo, este câncer que apodrece in natura e depois vai se cristalizando, se crisalisando in memoriam, sob as túnicas de todas as suas múmias ( Tu che invoco!)

Demasiado tarde, demasiado cedo. Ele antecipa o féretro do romantismo, ou o romantismo como féretro; o romantismo, meu inimigo de morte, o puto que combato, por vislumbrar nele o meu gêmeo incestuoso, meu petit pan de mur jaune recalcado, o reservatório dos meus fantasmas de pederasta impune (impunemente!), de diletante, de bricoleur...o romantismo, cujo enterro Wagner vai celebrar com pompas necrófilas, cujas exéquias de Musa catarrenta e tricolor Poussin vai retratar no Hymenaus travestido durante um sacrifício a Príapo... Odes, necrofilia, masoquismo... Tu che invoco! Só para terem uma idéia de como Berlioz é , ao lado do ensandecido Spontini, apenas um cristal crocante e quebradiço, o bufão preguiçoso para quem certamente Kipling deve ter dedicado o seu “É bonitinho, mas é arrrrte?”, o linfático punheteiro pós-bourboniano... abaixo, um link da morosa Janet Baker cantando Les Nuits d’eté (pior: a sonambúlica, a lexotânica Le spectre de la rose), e comparem com o escrínio precioso de sangue e vísceras, o milagroso coágulo de treva, a hóstia expiatória da dor e do desamparo ( lembrei de minha adolescência!, maldita seja!) que é Tu che invoco ( claro!), ária que se poderia, apenas num momento de hemiplegia fatal dos neurônios que me restam, comparar- pelo esmero harmônico, pela linha que se escande e se suspende no infinitivo de seu último suspiro ( todo último suspiro é infinitivo, não infinito), na abertura- ao trinado lacrimejante, fedendo a sífilis mal curada, da música de Berlioz.

Primeiro a Baker. Doppo, La Callas, que não tem pra outra, mesmo que já meio pé na cova ( a gravação é de 1958, com Rescigno em Paris, e a voz da coitada já não era o que tinha sido em 1954, com a imortal Violeta Valéry de Serafim).


http://www.youtube.com/watch?v=kJzvqX_phcE


http://www.youtube.com/watch?v=gaFI0f-ieYI


http://www.youtube.com/watch?v=HK_RFPYnauU






segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Handel, que horas são?, Puritanos e Preciosas

Se eu tivesse de contrapor o tempo escatológico ao tempo vulgar e imanente de todos os dias, eu definiria essa oposição por um exemplo. No tempo mundano, perguntamos a um sujeito na rua: Que horas são? No tempo escatológico, indagamos , na mesma rua e ao mesmo sujeito: Você já salvou a sua alma? É este tempo Absoluto, este tempo estigmatizado unicamente pelo limiares do Fim e do Princípio, tempo vertical e interpolado por todas as dimensões subjacentes às Escalas da Ordem e da Eternidade, que Handel representa em sua música.O profetismo, dom e opróbrio característico deste tempo, é o limiar de sua experiência histórica ( se História há). Apreendemos ( e somos apreendidos por) os ultrasons, as sub-ressonâncias, os apelos intersticiais, as finíssimas cicatrizes do Sempiterno. Aqui, nada de meio-termo ou grau: enterrados no Eterno até os ossos, acumpliciamo-nos com os atributos dos anjos e dos mitos primevos: a intangibilidade, a implausibilidade, a imarcescibilidade e a inelutabilidade de tudo o que jaz em nós, desde sempre e para além de nós. ( Excelsus Dominus).
Elegia dos anjos e dos demônios, que acossam os profetas com seus vaticínios e prognósticos, apelos que na música de Handel se cristalizam nesses coágulos da mortalidade amarfanhada- contraponto como úlcera da Finitude, eis a grande descoberta de Handel- que são os óbulos do vidente às suas vozes interiores: Com Rauco Mormorio, Dull Delay in Piercing, Scenes of Horror. É no lamento de Jô enxertado no Messias- I know that my Redeemer liveth-, porém, que ressoa o verso mais rispidamente caquético da mortalidade, a desoladora submissão da carne, sobreposta e sobre-alçada pelo espírito-Receptáculo, ao qual ela terá de prestar contas no Réquiem da Exaltação Escatológica: I know that my Redeemer liveth, and that he shall stand at the latter day Upon the earth. And though worms destroy this body, yet in my flesh shall I see God.
Esqueçam o verso seguinte: For now is Christ risen from the dead, the first fruits of them that Sleep; o que deve ficar- o que resta- é o início do versículo: esta concupiscência da carne estagnada, que aspira à podridão e ao caos como o invólucro quintessencial da Contemplação de Deus.
Esqueçam também o que disse acima; ouçam apenas a trompa de caça Maureen Forester, contralto magnífica. Nela, a profundidade e amplidão abissais –assim como o preciosismo, a untuosidade, o esplendor fúnebre e o o entusiasmo cromwelliano da Puritana - da música sacra de Handel encontram uma rival à altura.
No link, Lynne Dawson, modesta e circunspecta como um querubim, canta I know that my redeemer Liveth.

http://www.youtube.com/watch?v=qtU1c5JZf0k

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Puccini, o impressionista

Muitos chatos, geralmente tarados por Verdi, dão de ombros: Puccini, música menor. Música sentimental burguesa, trinados de cristal e alcova, Sèvres e chá das cinco, etc.
Puccini é um impressionista da ópera. Vejamos o sublime Vogliatemi bene, dueto da Madame Butterfly, perversão/ recriação da melodia infinita wagneriana no universo do melodrama estertórico sala-e-cozinha: aniquilação de uma geração inteira no êxtase da hemoptise e da água –furtada. Há todo um farfalhar camerístico de linhas que se entrecruzam e harmonias que se dissipam, uma displicência outonal no modo como a melodia vampirística abrasa o contraponto modorrento, um arfar e um esporrar no ouvido do burguês sifilítico. Prodígios do impressionismo: coleante harmonia que irisa a treva de lampejos, tumulto demoníaco da pulsão que esgarça superfícies( toda e qualquer superfície, dos corpos ou das culturas), curto-circuito da retina e da atmosfera, sacarose do crepúsculo, auto-destruição rabiscada a nanquim, etc
Impressionismo de pobre, mas os meios-tons, as síncopes venenosas no interstício de uma paisagem e uma sinapse, as elipses da memória e os lampejos visionários da percepção, a Natureza como psicotrópico do recalque estão lá, pudicas e morosas e domadas nas miríades de notas em Debussy; agônicas, amancebadas e pujantes de seiva decadentista em Puccini.
Cada nota em Puccini se associa a um objeto ou a um conjunto de objetos; logo, a um estado de coisas. O sótão e a equimose sentimental de tísicos sonambúlicos em La bohème, a mascarada e Turandot, Manon e o tocador, Tosca e a corte maneirista de Scarpia, necrose da paixão e expiação do mundo interior.
É o núcleo da correspondência, este feixe cognitivo-sinestésico de caracteres, atmosferas e associações metafóricas que produziu a mística em Baudelaire e a paranóia épica em Lautréaumont. Em Puccini, ela se reveste deste aveludado e deste lusco-fusco que transforma cada gesto- e o cenário fantasista ao qual ele se funde, como uma efígie; e o tempo de valsa em compasso ternário onde ele se incrusta, e o fantasma que este reveste- em um duplo da paisagem mental.
Simulação vertiginosa do espaço imaginário- a face de Jano do teatro social - pelo travesti que o habita, e cuja função é decalcar-lhe os ritos, amplificar-lhe os ritmos, nuançar-lhe a pressão e estimular-lhe o caráter abrasivo e excitante.
Em Puccini, vale a regra masoquista: o gozo ou a dor não diferem em natureza, mas na pressão exercida. O estímulo do prazer a meio caminho entre a transgressão e a regra, sua face porosa e intercambiável. Se o impacto da coação social sobre o sujeito for demasiado forte, ou este implode ou se transfigura. Em Vogliatemi bene, a segunda alternativa parece anunciar a revanche do gozo cósmico sobre o gozo bolorento, disciplinado e culpado do couple burguês.

No link, Kabaivanska, talvez a mais sublime Butterfly do nosso século e Nazzareno Antinori como um marmóreo Pinkerton na Arena de Verona. Ouçam também a gravação com Callas e Di Steffano, regida por Serafin, talvez uma versão mais exuberantemente “wagneriana” do dueto.


http://www.youtube.com/watch?v=v2oNJRTkonM

domingo, 21 de dezembro de 2008

Strauss, a canção do suicídio, Janowitz

O suicídio é o ato solipsista por excelência: mata o mundo dentro de si. Desta morte em diante, todas as manhãs serão enlutadas; todos os crepúsculos, temporões. No suicídio, a fratura que indispõe homem e mundo cessa; metades enfim reconciliadas. No canto de Gundula Janowitz, quando entoa as quatro últimas canções de Strauss, sobretudo Friüling, somos transportados a este requiem de estagnação emocional onde a anima cede o passo à desolação; onde as lágrimas cicatrizam nos confins do estupor; onde a elegia encontra seu objeto e seu Outro, o luto, este patamar de grandeza que apenas a decadência permite almejar.
A arte de Richard Strauss é decadente, apesar do frêmito dodecafônico; apesar e justamente pelo ardor luciferino, o pathos voluptuoso e centrípego. Wagner encontra um herdeiro à altura no claustro do mundo reificado de Schoenberg. Nunca se gritou tanto na ópera quanto na carnívora comoção de Salomé, nunca se arquejou e se gangrenou tão maníacamente a matéria da voz, nunca se ulcerou os arabescos do palco, as margens das coxias e dos tímpanos como neste templo erguido para o ocaso de um mundo e a celebração de seus retalhos, solilóquios, estertores: triunfo da coloratura.
Mas nas quatro últimas canções, e sobretudo neste arco debruçado sobre o dorso da dissolução- representada essencialmente no uso adstringente da “melodia infinita” wagneriana- que é Friüling, temos uma nota nova, para além e para aquém do gozo masoquista que é o spleen da decadência; um conjunto de notas, na verdade. Esta nota é exprimida naquela epígrafe- ou epitáfio- que Holderlin apõe a seu Empédocles: No perigo- na dissolução- reside a salvação. Na agonia, o anjo de Friüling encontra a reconciliação. No face a face com os limites, o apaziguamento da vontade, voto schopenhaueriano; na dizimação e na entropia, a expansão cósmica e a luxúria do Nada. Esta face imprevista- ma non troppo- da decadência de Strauss é o suspiro do moribundo- suicida- perante o mundo que finalmente se digna a abandoná-lo.
No link abaixo, Margaret Price numa versão menos cósmica e mais soturnamente acadêmica das obras-primas de 1948. Mas tentem ouvir Janowitz cantando isso e entenderão o significado da expressão canto do cisne.

http://www.youtube.com/watch?v=P1AvXOXhjmY